25 de abr de 2015

ARTE MARAJOARA – UMA RIQUEZA BASILEIRA.

“Cultura é toda forma de intervenção humana na natureza transmitida de geração a geração, nas diferentes sociedades, criação exclusiva dos seres humanos, é múltipla e variável no tempo e no espaço, de sociedade para sociedade.” -  Sílvio de Oliveira Torres.


Arte Marajoara - Brasil.

A ilha de Marajó, maior arquipélago flúvio-marítmo do mundo se localiza no estuário amazônico, sendo banhado pelo rio Amazonas apenas em sua porção oeste, onde a acumulação de sedimentos do rio originou áreas um pouco mais elevadas nesse arquipélago, que é predominantemente plano. Já no lado leste da ilha que é dominado por campos que permanecem alagados de fevereiro a junho, desenvolveu-se uma das mais intrigantes culturas da América pré-colombiana. A cerâmica marajoara, feita por estes indígenas, é a mais antiga dentre as artes em cerâmica do Brasil. Muito sofisticadas, as peças em cerâmica marajoara são altamente elaboradas, possuindo variadas técnicas de ornamentação. 


Mapa da ilha de Marajó.      

                  Indígenas da Ilha do Marajó



Vaso cerâmico marajoara.                        

Detalhe de alto relevo em vaso cerâmica marajoara.




Os Nuaruaques, também chamados de Aruaques, (significa “comedor de farinha”) foram os primeiros habitantes da ilha e os arqueólogos acreditam que esta cultura tenha vindo dos Andes há cerca de dois mil anos, provavelmente pelo Rio Amazonas, e se instalado na Ilha de Marajó com seu povo numeroso, para em seguida desenvolver-se tanto em relação ao aumento populacional, quanto no aspecto social e artístico. Calcula-se que no início do século XVII, quando os jesuítas fundaram o primeiro povoado na ilha, existiam mais de 100.000 silvícolas em Marajó. Após seu desaparecimento, hoje ainda é nítida por toda parte a memória indígena. Sua herança genética e cultural permaneceu na história viva e na formação dos “caboclos marajoaras” contemporâneos.

Índios do Brasil, Primeiro à esquerda, índio Aruaque.


Vasilhame de cerâmica                                                             Marajoara.



Aldeia Nuaruaque - 1860.


Se observarmos com cuidado esta rica cerâmica, veremos que nela foram registrados vários padrões de formas originais, muito antigas, que se perderam no decorrer do tempo, podendo estar relacionados não somente a cultos destes povos, mas também a uma linguagem desconhecida usada por seus ancestrais. É notório, que esses povos detiveram um grande conhecimento que foi no decorrer do tempo, misteriosa e gradativamente, sendo diluído nas brumas do esquecimento pelos seus próprios descendentes. Acredita-se que até mesmo a rica mitologia dos indígenas norte-americanos tenha exercido influência na cultura dos Marajoaras e na vasta simbologia e artes aprimoradas em cerâmica que deixaram para trás antes de desaparecerem.


Simbologia retirada de cerâmicas marajoaras.


















Vasilha cilíndrica de cerâmica                                                             marajoara – 400 a 1.000 D.C.




Vaso Globular 400 a 1.400 D.C. Cerâmica Marajoara.



















Vasilhame 400 a 1.400 A.D.                                                               Cerâmica Marajoara.


As mais esplêndidas cerâmicas Marajoaras que sobreviveram ao inexorável passar do tempo e à corrida especulativa de mercadores da arqueologia não se encontram sob a guarda de organismos culturais no Brasil, mas em museus europeus e norte-americanos. As peças remanescentes desta arte excepcional foram encontradas mais recentemente e catalogadas pelo pesquisador suíço Emílio Goeldi, a serviço do governo brasileiro. Estão depositadas no museu arqueológico de Belém, que recebeu o nome deste notável pesquisador.


Emílio Goeldi.




Retirada da grande igaçaba marajoara de local de escavação – Marajó.


Vasilha marajoara - 400 a 1.300 D.C - Brasil, Marajo. The Metropolitan Museum of Art, New York.





Acervo do Museu Paraense Emilio Goeldi – cerâmica marajoara.



Museu paraense Emilio                                                                 Goeldi, 1950.

Museu Emilio Goeldi – Pará – Brasil. (atualidade).





Parque Emílio Goeldi – Pará – Brasil 1901.


Parque do museu paraense Emilio Goeldi (atualidade)





Interior museu Emilio                                                                                     Goeldi – Pará - Brasil.                        

A Ilha de Marajó, onde esta cultura indígena se desenvolveu, não possui quase nenhum relevo e está a cerca de apenas 100 m acima do nível do mar. Porém, foi neste território que se encontrou os restos deste povo antigo, que pela variedade e sofisticação de seu método de vida, ofereceram aos pesquisadores elementos para os classificarem em um nível bem elevado junto às culturas mais antigas, especialmente entre as pré-colombianas da América Central e Andina.


Ilha de Marajó.



Índia Aruaque (Nuaruaques) – John Gabriel Stedman.




As pesquisas revelaram que os índios marajoaras levantavam suas casas sobre morros artificiais chamados de Tesos, aterros que chegavam a ter de 3 a 12 m de altura e cerca de 250 m de comprimento por 30 m de largura, construídos para proteger as casas de inundações comuns na ilha de Marajó. Os tesos marajoaras são sempre encontrados em agrupamentos, onde um, dois ou três tesos eram destinados à moradia da elite e ao culto aos antepassados, enquanto que em um número maior deles há evidência somente de moradia das pessoas comuns (onde se encontra cerâmica doméstica e ausência de cerâmica cerimonial). Esses agrupamentos mostram diferenças entre si em sua distribuição em relação ao acesso aos recursos naturais (lagos e igarapés) e também quanto à forma, decoração e iconografia dos artefatos. 


Corte Transversal de um teso                                                   funerário de Marajó.


Escavando esses Tesos, os arqueólogos encontraram vasos, vasilhas, urnas, tigelas e outras peças de cerâmica, feitas com argila cozida da região. Os objetos que mais chamaram a atenção, as urnas funerárias foram encontradas em sepulturas oriundas dos Tesos cerimoniais. Através de datações pelo método C-14 os arqueólogos chegaram a propor que a cultura Marajoara teria surgido por volta do ano de 1.100 a.C. Ao erigirem tesos cada vez maiores e mais altos, os antigos marajoaras buscavam distinguir-se na paisagem, dominando pelos campos até onde sua vista alcançava. Hoje em dia os tesos são ainda imponentes na paisagem, sendo procurados pela população como local de moradia e para refúgio do gado durante a estação chuvosa, quando tudo o mais alaga.


Escavação arqueológica Marajó.



Urna Funerária Zoomorfa - Marajó.


Urna funerária antropomorfa marajoara 1.000 a 1.250 d.C.


Urna Funerária – Marajó.                


Urna Funerária - Marajó - USP.




                                                               Urna Funerária Marajó.


A produção da cerâmica se concentrava no trabalho das mulheres das tribos, responsáveis por todo o processo, da escolha da argila à modelagem, da queima das peças à pintura dos utensílios. Dentre a produção, há uma grande diversidade de objetos utilitários e decorativos como vasilhas, brinquedos, urnas funerárias, apitos, chocalhos, cachimbos, estatuetas, entre outros.  Um dos aspectos que mais diferenciam a arte ceramista de Marajó das demais, inclusive, a tapajônica, é o da elaboração de tangas côncavas, que segundo pesquisadores eram utilizadas nos funerais femininos. Apesar de estas peças terem sido encontradas quase sempre em cemitérios, já se constatou que foram usadas também em outras ocasiões, porque algumas peças encontradas possuíam furos laterais para transpassar cordas de sustentação, com sinais de desgaste por uso contínuo.



Índias Brasileiras                                                                                        trabalhando a cerâmica.


Indígena brasileira decorando vaso de cerâmica.



Tapa sexo, masculino e                                                                                  feminino – cerâmica                                                                 marajoara.


Tapa sexos femininos e masculinos – cerâmica marajoara.



Tapa sexo cerâmica marajoara com furos laterais.



Objetos utilitários e decorativos – cerâmica marajoara.



Cachimbos cerâmica                                                                 marajoara.


Estatuetas – cerâmica marajoara.

Os objetos revelam caracteres logicamente delineados, estilizações de objetos e animais, além de motivos antropomorfos e zoomorfos, executados com elevado grau de elaboração e cuidado. 


Vaso Antropomorfo                                                                                  representando um homem sentado


Vaso Zoomorfo museu paraense Emilio Goeldi














Peça antropomorfa (Falo) – Cerâmica                       Marajoara.



Recipiente Antropomorfo – Cerâmica Marajoara.


As peças eram acromáticas, ou seja, não possuíam cor na decoração, ou cromáticas. Nas peças cromáticas, utilizavam o englobe (barro em estado líquido) com pigmentos extraídos de alguns vegetais, como o urucum (tupi "uru-ku", que significa "vermelho"); o caulim (mineral); o jenipapo (em tupi-guarani, significa "fruta que serve para pintar") extraído do suco da fruta verde, que em contato com o ar tornava-se negro ou azul-escuro; ainda o carvão vegetal; o babaçu; e a cúrcuma (açafrão da terra); estes dando origem as cores mais utilizadas, o vermelho, o branco, o preto/azul, o marrom e o amarelo.


Peça de cerâmica marajoara                                                  acromática.


Figura de tartaruga – cerâmica marajoara – acromática.





                                 Peça cromática de cerâmica marajoara. 


Peças cromáticas de                                                                               cerâmica marajoara.


Urucum / Jenipapo/Cúrcuma.


                 Mineral Caulim.


Acima a esquerda, Babaçu fruto. Á direita, Babaçu óleo corante.


Cúrcuma planta /Flor.                          


Cúrcuma ou açafrão da terra, tubérculo e pó.



Indígena com pintura corporal de urucum segurando um galho desta planta. – Foto: Serge Guiraud.



As índias da Ilha de Marajó utilizavam o barro para confeccionar os objetos utilitários ou decorativos. Visando aumentar a resistência das peças, misturavam o mesmo, com outras substâncias minerais ou vegetais, como pó de pedras ou conchas, cinzas de cascas de árvores ou de ossos e o cauixi (tupi "Kauixí", espécie de esponja gelatinosa que recobre as raízes submersas de árvores).


Diversos tipos de solo argiloso – Marajó.


                                  Cauixi.


A decoração das cerâmicas marajoara era composta por traços gráficos harmoniosos e simétricos, cortes, aplicações, dentre outras técnicas. Depois de prontas, as peças eram queimadas em fogueiras feitas dentro de buracos cavados na terra e eram finalizadas com breu do Jutaí (conhecida popularmente como Jatobá), uma resina feita da casca desta árvore. Este material proporcionava um efeito brilhoso semelhante ao do verniz.


buraco feito para processo de queima                           da cerâmica marajoara – feito como na época dos Nuaruaques


Processo de queima da cerâmica como era feita pelos indígenas em Marajó (colocação dos utensílios em barro no buraco feito no solo, já colocados os gravetos e folhas para queima).


Processo de queima da cerâmica como                                era feita pelos indígenas em Marajó (queima da cerâmica).


Jatobá ou Jutaí.


              Casca do Jatobá.


Resina da casca de Jatobá.



Objetos em cerâmica marajoara.


Desenho geométrico sobre urna funerária em cerâmica, Ilha de Marajó, Museu Nacional da UFR.


Grafismo na arte ceramista do Marajó.



A fase mais estudada e conhecida da produção da cerâmica marajoara compreende os anos entre 600 e 1.200 depois de Cristo, marcada pela presença de objetos com acabamento muito detalhado em baixo ou alto-relevo, leva a crer que a região foi ocupada por grupos com razoável grau de organização e diferentes camadas sociais, agrupadas a partir de suas relações e valores culturais. O legado deste povo é uma das maiores riquezas da cultura do Norte brasileiro e existem diversos artesão locais, caboclos marajoaras descendentes dos indígenas, que produzem belíssimas réplicas desta arte para turistas do mundo inteiro.


O ceramista Carlos Amaral trabalha de acordo com antigas técnicas marajoaras, e utiliza diversos dentes e garras de animais para realizar as incisões nas peças.



Caboclo marajoara.


Forno de queima da cerâmica marajoara atual.


Processo de decoração de peça de cerâmica antes da queima. – Marajó.


Processo de decoração de peça de cerâmica antes da queima. – Marajó.

Artesão de Marajó trabalhando em peças             de cerâmica.


Peças decorativas e utilitárias  - cerâmica marajoara.

Vasos -  cerâmica marajoara.

10 comentários:

  1. Não poderia deixar de prestigiar este post, que além de rico em conhecimento o é em beleza. Nossa história, tradição e cultura em muito descende da arte dos povos primitivos que habitavam a terra brasilis, e, o que podemos constatar é que toda informação antes nos fornecida sobre os indígenas que aqui habitavam entra em divergência ao nos depararmos com objetos artísticos de tamanho requinte, dotados de uma técnica própria e imponente, que em nada se assimila ao indígena passivo e pouco esclarecido do qual entramos em contato através do conhecimento até então disseminado nas escolas.

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    1. Delia Corecco Steinerabril 29, 2015

      Obrigado Aminah pela sua presença tão querida e inteligente.Um grande abraço.

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  2. Fiquei impressionada com sua pesquisa, parabéns!

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  3. Delia, obrigada por este post maravilhoso e interessante! Sou fã da arte marajoara, mas na realidade não sabia tanta coisa sobre a historia! E olha, que eu já visitei a ilha, o museu Goeldi (adorei o jardim que e lindo), uma fábrica de artesanato marajoara, e comprei peças que amo! Mas sua pesquisa me abriu o horizonte !Obrigada....Bjs

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  4. Muito bom esse material disponibilizado aqui! Parabéns

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  5. Onde podemos comprar uma urna funerária antigua? Onde vendem? Me pode escrivar email: a11000@aol.com

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  6. Me salvaram obrigada! O mais completo sobre o assunto, tinha que fazer maquete para escola .

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  7. Déo Almeida, paraense nascido em 1966, trabalho com artesanato em cerâmica desde 1966, especializei-me na reprodução de cerâmica com referências arqueológica, através de pesquisas em literaturas, seminários e oficinas na área. Participação em uma escavação arqueológica com uma equipe do museu Emilio Goeldi. Trabalho a cerâmica com comunidades no sul do Pará e no Baixo Amazonas. Coordeno um projeto no museu Emilio Goeldi e Belém do Pará com as arqueólogas e antropólogas Cristiana Barreto e Helena Lima junto com ceramistas artesão do Bairro do Paracuri em Icoaraci distrito de Belém do Pará. Meu contato no Whatssap - 91- 998139252 - email : de.o.ja@hotmail.com

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. (https://www.facebook.com/deo.almeida.9) Poderão ver um pouco mais do meu trabalho.

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